quinta-feira, 6 de setembro de 2012

SETE MITOS DA INSERÇÃO SOCIAL DO EX-ALUNO WALDORF

SETE MITOS DA INSERÇÃO SOCIAL DO EX-ALUNO WALDORF

fonte www.sab.org.br
Outubro de 2007

Parsifal
Este é o 1º recorte de uma ampla pesquisa, desenvolvida pelo casal de pais da Escola Waldorf Rudolf Steiner de São Paulo, Wanda Ribeiro (socióloga) e Juan Pablo de Jesus Pereira (engenheiro civil e empresário), que pretende investigar e relatar a trajetória de vida de ex-alunos Waldorf.
A história que os levaram a ela é bastante interessante. Em 1994, por meio de um ex-sócio com quem havia retomado uma sociedade, Juan Pablo ouviu pela primeira vez em sua vida falar de Rudolf Steiner, de Antroposofia e de Pedagogia Waldorf. A descrição de algumas características desta última deu-lhe um sentimento de já a ter conhecido por toda a sua vida. Uma "paixão à primeira vista". A partir daí seguiram-se muitas conversas sobre o assunto, leituras e ida às festas juninas e aos "bazares" nas Escolas Waldorf Rudolf Steiner de São Paulo (EWRS) e Francisco de Assis. Em 1998, a ida ao teatro de um 8º ano da EWRS acabou por transformar aquela "paixão" em um sólido amor.
Sempre que podia, Juan Pablo falava da Pedagogia nos mais diversos ambientes: em locais de trabalho, com amigos, parentes e, sistematicamente, ouvia as mesmas questões e inquietações: "Ah, com este ‘método’ os formados não vão passar no vestibular... não vão conseguir arrumar emprego... essa escola só deve formar artistas..." e muitas, muitas outras questões.
Ele tinha uma certeza "interna" de que nenhuma daquelas afirmações tinha fundamento, mas não tinha como "provar" isto.
O caminho de Wanda foi bastante diverso: Foi por meio de Juan Pablo, também em 1994, que pela primeira vez ela ouviu sobre Pedagogia Waldorf. Para ela, tudo aquilo que ele lhe relatava pareceu muito interessante, porém bastante distante de sua realidade. Além disto foram surgindo algumas dúvidas quanto ao futuro reservado a quem tinha uma formação escolar tão diferente.
Ao freqüentar as referidas festas juninas, os bazares e, finalmente, aquela peça de oitavo ano juntamente com Juan Pablo, surgiram a Wanda outras questões, agora voltadas para âmbitos mais social-antropológicos, tais como: Com que visão de mundo os alunos saem dessa escola? Que Pedagogia é essa onde a arte é tão fundamental? Que estarão fazendo agora seus ex-alunos? Que caminhos seguiram? Como estudante de Ciências Sociais na época, veio-lhe a idéia de que essas questões dariam uma ótima pesquisa. Essa intenção, entretanto, acabou sendo adiada por diversos motivos. Apesar de achar que a Pedagogia Waldorf estava distante de sua realidade, os caminhos percorridos na busca de uma escola para o ensino fundamental de sua filha fizeram-na olhar de uma outra forma para a proposta dessa Pedagogia e, então, reconhecer os aspectos pelos quais Juan Pablo tanto se empolgara.
Finalmente, em 2001, o casal finalmente conseguiu colocar a filha, então com 9 anos, no 3º ano da EWRS e, logo a seguir, Juan Pablo começou a participar do Conselho de Pais, tendo trabalhado até o ano de 2004 em praticamente todos os âmbitos possíveis para um pai dentro de uma Escola Waldorf. Qual não foi a sua surpresa, ao freqüentar os âmbitos da Escola, perceber que também ali viviam as mesmas questões e inquietações e não somente em pais novos, o que seria de certa forma até normal, mas também em muitos pais mais antigos e em alguns professores. Isto inquietou-o fortemente durante um bom tempo, culminando com a resolução de que deveria fazer algo a respeito. Percebeu, então, que o caminho seria fazer uma pesquisa com os ex-alunos. Ao comunicar isto à Wanda, "descobriu" que esta era uma ideia que há tempos fazia parte de seus planos.
Decidiram então que, socióloga de formação, Wanda faria uso de seus conhecimentos para elaborar e executar uma pesquisa que se iniciou no segundo semestre de 2003. A investigação foi realizada junto aos ex-alunos, que são os atores do processo e, por isso, os únicos que podem responder com bases "reais" àquelas dúvidas.
Os resultados trouxeram argumentos para suas certezas frente à Pedagogia Waldorf e a vontade de compartilhá-los: "Números não podem expressar a essência do que encontramos nesse caminho e de todos os âmbitos que a Pedagogia Waldorf é capaz de atingir, mas podem dar um aspecto concreto aos resultados", dizem os pesquisadores.

Sobre a Metodologia

– O campo de investigação escolhido foi a EWRS, primeiro porque é preciso localizar uma pesquisa no tempo e no espaço; segundo, porque ela tem um universo de ex-alunos suficiente para constituir uma base confiável para uma amostra estatística; terceiro, por ser a pioneira no Brasil, tendo diversas gerações de alunos egressos, o que nos dá uma visão mais ampla dos aspectos tratados neste estudo.
– No total foram entrevistados 135 ex-alunos, mas para este primeiro "recorte" trabalhou-se apenas com aqueles que efetivamente concluíram o ensino médio naquela escola. Assim, temos 108 ex-alunos, formados entre 1975 e 2002. Esses anos foram escolhidos porque 1975 foi o ano de formação da primeira turma do colegial. O ano de 2002 foi escolhido como limite, porque era preciso estabelecer um período que significasse um certo tempo de separação da Escola, para analisar a atuação "no mundo". O número de 108 ex-alunos representa uma amostra com índice de confiança de 95% para uma margem de erro de 10%. Nesse período, segundo informações da própria escola, o total de formandos é de 1.345 alunos.
– A escolha dos entrevistados foi feita ao acaso e teve como fonte três tipos principais de colaboração: a indicação de pessoas fora do âmbito escolar que de alguma forma conheciam ex-alunos por terem trabalhado junto com eles, por conhecerem seus pais, ou alguma outra forma; a indicação dos próprios ex-alunos entrevistados; um "sorteio" realizado pelo Grupo de Ex-Alunos da Escola (GEA) segundo solicitação dos pesquisadores; participantes de reunião anual promovida pelo GEA, na qual foi possível realizar entrevistas com ex-alunos que se apresentaram espontaneamente.
– Foi feito um questionário, com perguntas abertas, que são aquelas onde o entrevistado tem maior liberdade para responder e não apenas alternativas para escolher. Este procedimento visava acima de tudo trabalhar não só os elementos quantitativos como também os elementos qualitativos, que poderão ser utilizados em vários outros recortes posteriores, pois se procurou investigar os mais diversos aspectos daquela formação escolar, sempre do ponto de vista sociológico.
– A Pesquisa não compara a Pedagogia Waldorf com outros sistemas pedagógicos nem a EWRS com outras escolas Waldorf. Ela ressalta as características que tornam a Pedagogia Waldorf "diferente" e relaciona sete mitos que esta "diferença" suscita (tanto no Brasil como no exterior). Obviamente, existem ainda outros "mitos" que não foram investigados.

- Perfil dos ex-alunos entrevistados
42% do sexo masculino e 58% feminino 
58% dos entrevistados entraram na escola no jardim-de-infância
21% ingressaram entre o primeiro e o quarto ano
15% vieram para a Escola entre o quinto e o oitavo ano
6% tornaram-se alunos no Ensino Médio

OS 7 MITOS e um resumo dos resultados obtidos:
1. Os ex-alunos têm muita dificuldade em passar no vestibular
100% dos que prestaram vestibular passaram, sendo 91% na primeira tentativa
2. Só passam em vestibular de faculdades de segunda expressão
68% entraram em faculdades de primeira expressão (segundo classificação do "Provão" do MEC)
3. Não têm capacidade para cursar uma faculdade
92% completaram com êxito o ensino superior
4. A Pedagogia Waldorf só forma artistas
Apenas 12% formaram-se em carreiras artísticas
5. A Pedagogia Waldorf não prepara para o mercado de trabalho
99% estão atuando no mercado de trabalho
6. A Pedagogia Waldorf não prepara para o mundo da competição profissional
84% não se sentiram prejudicados
7. A Pedagogia Waldorf é de doutrinação religiosa
100% não perceberam nenhum tipo de doutrinação religiosa



Sobre os pesquisadores

  • Wanda Ribeiro (wandar@uol.com.br) é cientista social formada pela Universidade de São Paulo em 2001, onde também graduou-se como Licenciada em Ciências Sociais em 2003. Fez o curso de formação de professores Waldorf de 2003 a 2006. É "mãe Waldorf" desde 2001.
  • Juan Pablo de Jesus Pereira (jpjeng@jpjeng.com.br) é engenheiro civil formado pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo em 1978. Fez o curso de formação de professores Waldorf de 2003 a 2006 e é "pai Waldorf" desde 2001.



A filha do casal, Renata, é aluna da EWRS desde 2001 e atualmente (isto é, na época em que este texto foi escrito) está na 9ª série.

Carolina defende método de ensino antroposófico

Opção. Carolina defende método de ensino antroposófico:  fonte: Estadão

Carolina Peron, de 18 anos, fala com entusiasmo sobre o Colégio Waldorf Micael de São Paulo, onde estuda desde o 5º ano. "Aqui é lugar de gente feliz, onde nos sentimos protegidos", contou, pouco antes de começar o ensaio da peça Campeões do Mundo, de Dias Gomes, que seria encenada pelos alunos do 12º ano dali a três dias. 12º ano? Sim, o Micael trabalha com o ensino fundamental de nove anos muito antes da promulgação da lei 11.274, de 2006.

A diferença em relação a outras escolas - cujos estudantes estão no 3º ano do ensino médio - é também conceitual. O Micael, que segue os preceitos da pedagogia Waldorf, vê o aluno como ser humano em formação. Por isso, não separa os últimos três anos em um novo ciclo, mas os considera a continuidade de um processo já iniciado.

Nesse caminho, os alunos têm uma série de atividades extracurriculares. Mesmo no 12º ano, os estudantes continuam a frequentar aulas de música, artes e euritmia (dança baseada nos conceitos da filosofia de ensino desenvolvida pelo alemão Rudolf Steiner, a antroposofia). "Acho o currículo perfeito, faz toda a diferença ter esse ‘respiro’ entre as aulas", conta Carolina.

E o grande projeto da turma foi a apresentação da peça de Dias Gomes, que não se resumiu apenas à encenação - foram os próprios alunos que, entre outras coisas, montaram parte da estrutura do palco, confeccionaram os figurinos e fizeram a divulgação, com o acompanhamento de um diretor de teatro profissional. Campeões do Mundo ficou em cartaz durante quatro noites, no próprio colégio.

Ainda assim, todo o conteúdo do vestibular é coberto pelo Micael e os professores têm liberdade para definir a metodologia e a sequência dos assuntos. O colégio não adota material didático: os alunos são responsáveis por fazer seus próprios cadernos e usam apostilas criadas para cada aula específica. Sobre isso, Carolina diz: "seria legal ter livros para alunos Waldorf, uma mudança pequena e prática".

Ela já pensou em sair do Micael, quando estava no 9º ano. "Estava meio cansada da antroposofia, queria conhecer pessoas novas e tinha outras expectativas em relação ao ensino médio", conta. Foi convencida a ficar pelos pais, e não se arrepende. "Hoje, vejo que foi só uma fase de mudanças. Estudo com os mesmos colegas desde quando entrei e os professores daqui tentam identificar suas habilidades e aprofundá-las."

Por falar em habilidades, Carolina quer fazer vestibular para Relações Internacionais - ela é fluente em inglês e espanhol e "entende" alemão - e também pensa em estudar culinária - seu pai diz que ela cozinha muito bem, e sua mãe é dona de restaurante. Antes, porém, pretende passar uma temporada viajando pela Europa, onde morou por quatro anos antes de voltar para o Brasil e se matricular no Micael. "Não estou aflita com a proximidade do vestibular. Se eu não passar, não vai ser o fim do mundo, como pensam os alunos de outras escolas."

Nesses sete anos de colégio com pedagogia Waldorf, ela já ouviu comentários de que "tem um bando de hippies no Micael", por exemplo. E como Carolina reage? "Eu mesma não entendia muito bem a antroposofia, mas hoje em dia eu a defendo e não me sinto parte de uma minoria. Sinto-me privilegiada."

FALA, PAI!

Marcelo Peron Pereira, de 48 anos, consultor de meio ambiente

"Moramos fora do País por um período e a Carol foi alfabetizada em inglês. Quando voltamos para o Brasil, ela estava com 12 anos e nós a matriculamos num colégio perto de nossa casa, no Butantã, zona oeste. Mas ela sentia uma dificuldade danada com o português, principalmente com o enunciado de questões de matemática, que ela não conseguia entender.

Alguns meses depois, decidimos mudá-la para o Micael, por recomendação de minha cunhada. Ela é pedagoga e conhece a metodologia Waldorf. Fizemos uma visita à escola e ficamos encantados. Tanto que depois também matriculamos as duas irmãs mais novas da Carol.

O que mais pesou na nossa decisão foi a percepção de uma certa tolerância e tranquilidade do colégio para lidar com essa dificuldade com o idioma que a Carol tinha. É uma coisa que não existe em outras escolas, que muitas vezes acabam estressando a criança para que ela se adeque à média dos outros alunos.

A educação infantil numa escola Waldorf é interessante. Primeiro porque é um ambiente muito legal, do ponto de vista físico, e também pelo modo como os professores se relacionam com as crianças. Elas não são separadas por idade, por exemplo: minha filha mais nova estudou na mesma sala que uma menina três anos mais nova.

Além disso, não há uma preocupação de alfabetizar as crianças rapidamente - claro que com a Carol foi diferente. Mas com as minhas outras filhas o processo aconteceu sem cobranças ou dificuldade. Fora que os alunos Waldorf têm um estudo importante de música e brincam de maneira intensiva.

Outra coisa que gostei muito, desde o início, é do fato de o Micael ser um ambiente de inclusão. Por estar inserido numa comunidade pobre, ele desenvolve uma série de ações junto aos moradores da região, dentre as quais a concessão de bolsas de estudos para crianças dos arredores.

O mais lógico é o aluno estudar de cabo a rabo numa escola Waldorf - do ensino infantil ao médio. Mas isso não é uma regra, claro. O importante, antes de matricular um filho numa escola que segue essa pedagogia, é entender os valores da escola.

Você precisa acreditar que é razoável a ideia de seu filho não precisar sair direto da escola para a faculdade, porque o Micael mantém uma relação não convencional com o vestibular. E inclusive se preparar financeiramente para isso - geralmente o aluno faz cursinho durante ou depois do 3º ano do ensino médio. Por causa disso, acaba acontecendo de muitos pais se desesperarem no meio do caminho.

Eu já estava preparado mentalmente para esse "valor" do Micael, com o qual eu concordo, mas acredito que o projeto pedagógico da escola tem de levar em conta que os alunos vão participar de um processo seletivo se quiserem fazer faculdade. Falta uma "calibragem" melhor no ensino médio para que se leve isso em consideração. O bom é que o Micael é um colégio novo e está em contínuo desenvolvimento."

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

História da vida real: O "retardado" que se formou em Medicina Pediátrica


Estava eu em sala de aula quando fui chamada para comparecer na sala da diretoria do colégio. Apreensiva, passei uma tarefa para a turma, prometendo que daria ponto positivo para quem fizesse os exercícios que estávamos desenvolvendo. Meu objetivo era evitar a tradicional bagunça que se forma quando o professor se ausenta da sala. O diretor, pessoa de minha alta estima, apresentou-me um deputado federal e seu filho, um garoto de 10 anos aproximadamente. Sentei-me para ouvir a queixa: o pai relutava em aceitar a recomendação que a assessora pedagógica da instituição dera ao filho dele. Dissera que o melhor para o menino era ser matriculado na APAE. Isso não poderia acontecer nunca: um filho seu na APAE! (a entidade não gozava do prestígio educacional que apresenta hoje em dia). O diretor havia me chamado, pois sabia de meu trabalho como professora particular e psicopedagoga. Conversamos um pouco e eu marquei de ir à casa dele logo após as aulas daquele dia. Quando cheguei à residência da família, os pais estavam ausentes e o menino estava com a empregada na sala, comendo em frente ao aparelho de televisão. Esperei o término da refeição e pedi para ir ao quarto dele. Resolvi começar antes mesmo de falar com os pais, pois fui informada que ambos não tinham hora para voltar para casa. Havia um primogênito, cuja a diferença de idade entre irmãos era de 12 anos. Como o mais velho tinha um negócio próprio, vinha para casa para dormir, comer e aproveitava para atormentar o caçula, como mais tarde pude verificar. Fazia criticas pesadas sobre o jeito de ser de seu irmão.

Começamos a conversar, ou melhor, eu iniciei um monólogo, pois ele não falava com ninguém, a não ser com a empregada. Esta, por sua vez, adentrou ao quarto com uma bandeja com suco e bolachas e começou a responder minhas perguntas no lugar do menino. Este, por sua vez, voltou a comer o lanche, como se não tivesse acabado de jantar. Estava obeso e sua camada de gordura, na minha concepção que passaria a se formar a partir desse momento, funcionaria como um isolante do mundo e mais, alimentado por sua única interlocutora.

Os pais chegaram tarde, pediram desculpas pelo atraso, pagaram as horas que lá permaneci, mas não cumprimentaram o filho, nem sequer “boa noite”. Eles preferiram atendimento domiciliar, pois o pai temia sequestro e não dispunha de motorista no período noturno. Saí de lá com a certeza que estava diante de um grande desafio.  Em casa, refleti muito e montei um plano pontual para salvá-lo, aumentar sua mínima autoconfiança e  plano global, no qual aplicaria a Pedagogia Waldorf.

Como havia recebido “carta branca” dos pais, fui até à escola do menino e pedi transferência dele para um colégio menor, cuja diretora era minha conhecida. Ao saber da mudança de colégio, o menino reavivou. O material didático do novo colégio, de alta qualidade, era redigido com letra miúda. Levei a uma máquina de Xerox e ampliei cada folha. Recortei o conteúdo e colei, em sequencia, em caderno A3 de desenho. Evidentemente, só trabalhávamos com esse material em casa e líamos sempre o que seria dado no dia seguinte. Ou seja, quando ele ia à escola já sabia o que seria apresentado e já havia resolvido os problemas comigo. Sua nova classe, com poucos alunos, se enturmou logo com ele e o menino estava feliz por ter deixado para trás seu passado de humilhação e de ser classificado com um “retardado”. Todas as noites e fins de semana trabalhávamos juntos nas matérias de anos anteriores, unindo-os com os do ano letivo. Para explicar história eu fazia teatro com ele; para a  geografia do Brasil, um grande mapa em argila com relevos e rios. Uma lousa no quarto, com gizes coloridos ajudavam na aritmética e na língua portuguesa ( azul para substantivo, amarelo para adjetivo e vermelho para verbo)- adaptação da Pedagogia Waldorf. Cantávamos músicas que escrevíamos e decoramos o quarto dele com aguadas, desenhos livres, formas e geométricos. (quando era professora de classe Waldorf, tive boa orientadora nessa área- Leonor Bertalot).

Nesse período, a família apercebeu-se do desenvolvimento do menino e passaram a nos dar apoio. A empregada ficou proibida de dar-lhe comida a qualquer hora e, assim, ele emagreceu. Passou de ano, acompanhei-o por mais dois anos e terminamos nosso trabalho. Não nos vimos mais, pela própria dinâmica da vida.

Há alguns anos, eu estava descendo a Rua Marquês de Itu, em direção à Santa Casa de São Paulo quando ouvi:

- Oi, tia! Olhei e vi um médico "barbado", grande, de jaleco branco e pensei que ele tivesse se enganado.

-Você não se lembra de mim, Stella?

-Desculpe-me, não.

- Sou Fulano, filho daquele deputado. Queriam levar-me para a APAE e estudamos juntos, agora você se lembra?

 - Claro que sim, você está muito diferente, grande e forte, mas eu me lembro de você. Conversamos um pouco e ele me disse:

- Sou médico pediatra aqui na Santa Casa, formado em Universidade Pública. Estou casado e faço aqueles desenhos com meus filhos. Por sinal, deixe-me seu telefone porque talvez eu venha a ter problemas com meu filho mais velho!

Assim que ele continuou seu caminho, eu chorei de emoção por ver seu sucesso, sua doçura e seu desenvolvimento humano e agradei aos céus por termos mais um médico a cuidar de nossas crianças.

domingo, 2 de setembro de 2012

História da vida real: A raiz quadrada que virou pica-pau


Fui chamada à casa de uma família, cujos primos já eram meus alunos. Lá encontrei um garoto de uns 12 anos que estava com problemas na escola. Não conseguia aprender, tinha dificuldades de concentração e estava bastante desanimado com a minha presença; Era domingo e a família fazia uma churrasco no quintal. Entrei com ele no escritório do pai e nos sentamos. Ele estava desconfortável e, evidentemente, eu também. Resolvi ir até o quarto dele e notei diversos desenhos de carros, muito bem feitos, detalhados e bem pintados. Voltamos ao escritório e começamos a conversar sobre carros. Ele se surpreendeu quando eu disse que assistia à Formula Um e que gostava de carros e de velocidade. Ele estranhou o fato por eu ser uma mulher adulta e a visão dele, sobre as mulheres, é que elas gostavam de outras coisas, como: compras, cozinha, crianças etc.
Eu disse que cozinhava bem mas que não gostava de compras e amava crianças, mas não tinha tido filhos. Acabamos por nos entender nesse primeiro momento e partimos para o que chamo de intervenção direta: o problema que havia me trazido ali - a matemática. Peguei um papel e pedi que ele me desenhasse um carro igual aquele que víamos na garagem, pela janela do escritório. Ele desenhou, desenhou e me mostrou o resultado. Notei que havia diferenças entre o desenho e o que eu via. No desenho dele o carro tinha um adesivo na porta  e um amassado na lateral. Comentei que o carro estava diferente daquele que eu via e ele me disse que havia desenhado o outro lado do carro, ou seja: estávamos vendo o lado do motorista e ele havia desenhado o lado do passageiro!! Surpreendida, fui comparar o desenho com o carro e estava correto: adesivo e amassado estavam do outro lado. Quebrado o "gelo" do primeiro momento, voltamos à mesa de trabalho e eu lhe desenhei uma raiz quadrada como essa aí em cima. Perguntei a ele o que era aquilo. Ele olhou, olhou, virou a página de várias maneiras e pegou o lápis, fez um bico menor e corpo de um pássaro. Foi buscar seus lápis de cor e fez um pica--pau!
Surpresa com o resultado do dia, aproveitei para mostrar a função da raiz quadrada e como era reltivamente simples resolvê-las. Ele fez comigo diversas tarefas e percebi que ele estava satisfeito por eu ter valorizado seu desenho, pois pedi para mim e com autógrafo dele.
Terminamos tarde, mas ele não parecia estar com fome ou ansioso para se reunir à família.
Após longa entrevista com o pai e depois com a mãe, fui ao colégio dele saber mais sobre esse tal distúrbio de atenção e de concentração relatado pela psicóloga da escola. Marcamos horário e percebi que ela pouco conhecia sobre esse menino. Dizia que andava distraído e que não tinha vontade de fazer nada que os professores pediam.
Organizei um plano de trabalho, com base Waldorf, para ele. Em minha maleta havia caderno de desenho, guache, pincéis, lápis de cor, giz de cera, argila. A cada estudo de 20 minutos, eu deixava que ele desenhasse ou esculpisse o que haviamos estudado. Se víamos célula e seus componentes no texto, eu pedia que ele desenhasse ou esculpisse a célula. Ele  fazia e aprendia. Nas equações de primeiro grau, eu usava uma cor diferente para cada signo, de modo que ele entendia cada x ou y era distinto de outro. O aprendizado foi rápido e efetivo. Como tínhamos algum tempo ( passava as algumas tardes da semana com ele, de acordo com meu sistema de trabalho) levei um pedaço de mogno e ferramentas para que esculpíssemos. Ele escolheu
um cavalo muito parecido com este e nós começamos a esculpi-lo. Quando pegou o jeito com as ferramentas, passou a fazer sozinho. O trabalho, depois de pronto, ficou lindo, envernizado e foi dado ao pai como presente. Meu trabalho havia terminado, pois as notas haviam melhorado na escola. Sugeri aos pais que o colocassem em escola que tivessem aulas de arte, para explorar esse talento do menino. Minha idéia não foi aceita,Os pais consideraram que os filhos iriam estudar todos naquele colégio "normal" para terem futuro garantido. Pelo que sei, via internet, esse menino é um executivo. Espero encontrar com ele um dia e perguntar-lhe de sua arte. Afinal, talento precisa ser regado e, com certeza o diagnóstico de diistúrbio de atenção e de concentração foi trabalhado por nós no desenvolvimento da vontade, pelos desenhos das matérias e pela escultura na madeira. Foi a Pedagogia Waldorf que auxiliou-me, amenizando o aprendizado, na árida forma de ensinar das escolas tradicionais. 

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

História da vida real: Em 1977, 5ºB, meus alunos Waldorf - Escola Higienópolis



kindergarden na Escola Higienópolis


                                                                 
                                                                    Viagem com turma em 1977
Alex Dauch, Alfeu Machorro, Andri Stahel, Frederico José, Kendi Matuzita, Mervyn Lowe Neto, Paulo Henrique Mazzarella, Philip Mai Rodrigues,Richard Stubing, Sergio Camargo, Silvio de Almeida Toledo Neto, Thomas Macrander, Alice Murray, Ana Cristina de Moraes Nobre, Ana Maria Maciel de Castro, Ana Rosa M. Portela, Andrea Setzer, Andrea Geófilo, Bärbel Rothmund, Betina Bischof, Edi Cassia Loiola Dias, Felícia Siemsen, Jaqueline Metzler, Karin Kenzler, Karin Ennser, Liliana Passera Kneese, Marina Mindlin Loeb, Patricia Bertuccioli de Castro, Paula Pexider Srica, Rose Daros, Simone Riedmiller Meruvia, Simone Rolim Fernandes Fontes, Suzana Salles Correa de Oliveira, Francisco Rinaldi, Adriana Betti








































quinta-feira, 30 de agosto de 2012

O que é Psicopedagogia com ênfase na Pedagogia Waldorf

 
Psicopedagogia com ênfase na Pedagogia Waldorf

Olá, amigos! Em primeiro lugar, quero esclarecer que antes mesmo de ser Psicopedagoga eu fui professora de classe Waldorf, na antiga Escola Higienópolis, atualmente Rudolf Steiner de São Paulo, na Rua Job Lane, iniciando-me nessa apaixonante área que é a educação,  em 1975.










Lá conheci e convivi com mestres maravilhosos e muito aprendi sobre a Antroposofia ( continuo a aprender) e sobre mim mesma. Eu já era Profa de Ciências e havia me formado como Professora Primária no Instituto de Educação Dr. Cardoso de Almeida, em Botucatu, ESP.Havia lecionado por dois meses em escola rural, mas nada se comparou ao me deparar com a Pedagogia Waldorf. Foi amor à primeira vista!
Pósgraduei-me em Piscopedagogia em 1984, especializei-me em 1986, quando já atendia alunos em domicílio.O que é Psicopedagogia?
Segundo a definição oficial, Psicopedagogia é o campo do saber que se constrói a partir de dois saberes e práticas: a pedagogia e a psicologia. O campo dessa mediação recebe também influências da psicanálise, da lingüística, da semiótica, da neuropsicologia, da psicofisiologia, da filosofia humanista-existencial e da medicina. A psicopedagogia está intimamente ligada à psicologia educacional, da qual uma parte é aplicada à prática. Enquanto a psicologia escolar (profissional com formação em psicologia) procura compreender as causas do fracasso de certas crianças no sistema escolar, a psicopedagogia (profisssionais com diferentes formações) trata de determinadas dificuldades específicas de aprendizagem.
A psicopedagogia com ênfase na Pedagogia Waldorf, nosso foco de trabalho, tem embasamento na concepção de desenvolvimento do ser humano introduzida por Rudolf Steiner. Não tratamos apenas do problema em si, mas também das causas que levaram às dificuldades de aprendizagem e distúrbios de atenção e de concentração, utilizando de meios que fortaleçam a vontade, o pensar, o sentir e o querer, incluindo aqui, também, o conviver, incentivando o brotar das capacidades do indivíduo, seja ele criança ou adulto.Trabalhamos nessa abordagem desde 1986, com muito sucesso, especialmente com crianças, jovens e adultos que nunca estudaram em Escola Waldorf. Oriundos do sistema educacional de nosso país ou de famílias problemáticas ou desestruturadas, trazem lacunas na educação e em seu desenvolvimento humano.

Como escreveu Rudolf Steiner em A Prática Pedagógica (São Paulo: Ed. Antroposófica), palestra de 20/4/1923: “Não há basicamente, em nenhum nível, uma educação que não seja a autoeducação. (...) Toda educação é autoeducação e nós, como professores e educadores, somos, em realidade, apenas o ambiente da criança educando-se a si própria. Devemos criar o mais propício ambiente para que a criança eduque-se junto a nós da maneira como ela precisa  educar-se por meio de seu destino interior.”

Assim, no decorrer desse tempo, pudemos observar que a Pedagogia Waldorf (1), mesmo fora das escolas Waldorf, pode atingir e tratar de pessoas que nunca dantes tinham sido tratados, holisticamente, com cuidados pedagógicos necessários. Um exemplo interessante é quando reintroduzimos a matemática, matéria detestada pelos alunos, com sistema Waldorf. Exemplificando: a geometria contemplativa, ministrada normalmente em uma escola Waldorf no 6º ano, surge diante de nosso aluno como uma diversão, mesmo quando explicamos o trabalho com ângulos. Muitos chegaram a emoldurar seus desenhos, de tanto orgulho por terem dominado aquela matéria e pela beleza e harmonia das cores e das formas. Com as famílias que mantemos contato, temos notícias tranquilizadoras quanto à qualidade de vida pessoal e profissional de nossos ex-alunos, o que nos deixa seguras para continuar com esse nobre trabalho educacional.


(1)Ela é uma pedagogia holística em um dos mais amplos sentidos que se pode dar a essa palavra quando aplicada ao ser humano e à sua educação. De fato, ele é encarado do ponto de vista físico, anímico e espiritual, e o desabrochar progressivo desses três constituintes de sua organização é abordado diretamente na pedagogia. Assim, por exemplo, cultiva-se o querer (agir) através da atividade corpórea dos alunos em praticamente quase todas as aulas; o sentir é incentivado por meio de abordagem artística constante em todas as matérias, além de atividades artísticas e artesanais, específicas para cada idade; o pensar vai sendo cultivado paulatinamente desde a imaginação dos contos, lendas e mitos no início da escolaridade, até o pensar abstrato rigorosamente científico no ensino médio. O fato de não se exigir ou cultivar um pensar abstrato, intelectual, muito cedo é uma das características marcantes da pedagogia Waldorf em relação a outros métodos de ensino. Fonte Sociedade Brasileira de Antroposofia  http://www.sab.org.br/antrop/